… continuação
Por que ser favorável às cotas
Sandra Haydée Petit
Especial para O POVO
14/04/2007 14:36
Antes de uma resposta aos compromissos assumidos pelo Estado Brasileiro em fóruns internacionais da ONU e particularmente na III Conferência Mundial de Combate ao Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata ocorrida em Durban, África do Sul, em 2001, a política de cotas é resultante das intensas mobilizações das organizações do Movimento Negro, notadamente após a Marcha Zumbi dos Palmares pela Vida em 20 de novembro de 1995. Tais mobilizações levaram também às primeiras ações afirmativas no âmbito dos Ministérios, à criação da SEPPIR (Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial em 2003, à promulgação da lei 10.639/2003 que institui a obrigatoriedade do ensino da História e da Cultura Afro-Brasileira e Africana nas escolas e faculdades públicas e privadas e ao Estatuto da Igualdade Racial. Antes mesmo do atual Projeto de lei 73/99 passar a tramitar no Congresso, mais de 35 universidades entre federais e estaduais já implementaram cotas para estudantes negros, indígenas e alunos da rede pública e, em muitos casos também, para pessoas com deficiência. O atual projeto de lei prevê cotas nas Universidades Federais para alunos das escolas públicas e dentro desse percentual (50%), uma proporção equivalente ao percentual de pretos e pardos de cada região. Cada universidade é assegurada autonomia para decidir como irá implementar as cotas "raciais", mas uma das fórmulas mais usadas nas Universidades que as implementam é da admissão à cota por auto-declaração de seu pertencimento étnico. Em seguida os cotistas concorrem entre si mas devendo ser aprovados nas mesmas provas que os demais candidatos, geralmente com pequena diferença no ponto de corte.
*Os resultados* nas Universidades que vêm adotando as cotas são promissores uma vez que o desempenho dos cotistas tem se revelado melhor ou igual ao dos não cotistas. Pesquisas apontam que professores dessas universidades são majoritariamente favoráveis às cotas e que notaram que o nível acadêmico melhorou ou permaneceu igual após a entrada dos cotistas. Além de aumentar a proporção de pretos e pardos naquelas instituições, as cotas vêm trazendo à tona o debate sobre o racismo até então colocado debaixo do tapete para não ser enfrentado. Também vêm sendo levantandas novas necessidades e demandas, não somente em torno das medidas de ajuda à permanência mas ainda sobre a premência de mudanças curriculares a fim de fomentar o conhecimento acerca da história, cultura e contribuições científicas desse segmento numa Universidade até hoje encastelada em valores eurocêntricos elitistas.
A impregnação desses valores talvez seja um dos motivos da elite escolarizada ainda se colocar de forma desfavorável às cotas (55%), enquanto as pessoas com escolaridade fundamental (71%), na sua maioria, aprova essa ação por perceber as possibilidades de mobilidade social que se abrem após tantas décadas de imobilismo e por entenderem essa política como justa e valorizadora de seus direitos historicamente negados.
*Sandra Haydée Petit* é professora da Faculdade de Educação da UFC, membro do Núcleo de Africanidades Cearenses (Nace) e do Instituto Negra do Ceará (Inegra).
Quadro:
*DESIGUALDADE EM NÚMEROS*
- Segundo o IBGE, 47% da população do país é negra (preta ou parda), mas 84% dos alunos universitários são brancos.
- O Brasil possui a segunda maior população negra do mundo, perdendo apenas para a Nigéria, mas no Brasil os negros vivem com um IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) inferior em quarenta pontos aos brancos, e ainda inferior ao IDH dos países africanos, inclusive da Nigéria.
- Em 2005, dos 620 Procuradores da República, apenas 7 são negros.
- Dos 77 ministros dos quatro tribunais superiores, há apenas 2 negros.
- Dos 513 deputados da Câmara Federal, apenas 20 são negros.
- Do corpo de 1000 diplomatas do Itamaraty, apenas 10 são negros.
- Negros com a mesma escolaridade que brancos ganham apenas 84% do que ganham os brancos.
- Apenas 1% dos docentes universitários são negros, proporção inferior à da África do Sul que abandonou o sistema de segregação chamado apartheid há menos de 15 anos.
- Entre os 60 cientistas considerados de maior destaque pela SBPC, apenas 1 é negro (o sociólogo Milton Santos).
- Pretos e pardos estão quase ausentes dos cursos de "alto prestígio" (Medicina, Direito, Odontologia, Administração, Arquitetura, Jornalismo) e estão sempre sub-representados em todos os demais cursos.
- Entre 1929 e 2000, a diferença de escolaridade entre brancos e negros em todos os estágios mantém-se em níveis semelhantes, sendo que o abismo vai crescendo no ensino superior.
- Mesmo após a redemocratização do País, não tem diminuído o abismo entre brancos e negros, apesar das políticas públicas que foram geradas nessa época (sendo que só agora algumas começam a serem direcionadas, ainda timidamente, para a população negra).
- Segundo dados do MEC, o desempenho de alunos negros na mesma sala de aula, e na mesma condição social é inferior ao de alunos brancos, sendo uma das explicações que os alunos negros são tratados de maneira diferenciada dos alunos brancos pelas expectativas negativas que muitos professores nutrem quanto às possibilidades de sucesso de seus alunos/as negros/as. (SHP)
recebido de Marcelo H. R. Tragtenberg - marcelo@fisica.ufsc.br, em discriminacaoracial@yahoogrupos.com.br; Tuesday, April 17, 2007 8:45 AM